Dia 19 - Querido Tomé, não eras tu quem eu via.

Poderias ter vindo a ser feliz como adulto?  A minha resposta imediata é não. Posso estar totalmente enganada. É muito difícil ver uma criança sensível e bondosa transformar-se num adolescente em sofrimento.

De uma coisa tenho absoluta certeza, não há nada, nada, de que tenhas que pedir desculpa, nada de que tenhas que te envergonhar nem na tua vida, nem na tua morte. Eu sei, sem a mínima dúvida que fizeste sempre o teu melhor. Quem me dera ter-to dito mais vezes. Custa-me pensar o mesmo de mim e do teu pai, mas sei que também é assim. Quem me dera que alguém pudesse dizer-mo de uma forma como eu conseguisse acreditar. É mais fácil reconhecer isso nos outros do que em nós próprios.

25 anos de terapia tornaram-me uma sobrevivente, mas não uma pessoa estável, nem feliz. 25 anos de terapia não me permitiram conseguir confiar nas pessoas ou em mim. Ainda é um equilíbrio entre a ordem e o caos. Há pessoas que se horrorizam com a desorganização da minha casa, nem imagino o que sentiriam se conseguissem ver a desorganização dentro da minha cabeça. É por isso que tenho tanto cuidado sobre quem deixo vê-la, ás vezes sinto-me como a Gorgona, quem olhar fundo dentro dos meus olhos pode transformar-se numa estátua de pedra. Tu olhaste e olha o que aconteceu. 

Disseste-me que era tão fácil ser uma pessoa má, que isso te assustava tanto. Ao contrário de tanta gente compreendeste que maus não são só os outros, que todos andamos para um lado e para o outro dessa linha. Assustei-me quando te ouvi, falaste com tanta firmeza e com tanta angústia. "É tão fácil fazer coisa más." Não sabia o que te dizer. Disse-te que temos sempre essa escolha mas que a escolha é nossa. Claro que te menti. O que é que havia de te dizer? Que qualquer um pode dar por si a ser alguém de quem  não gosta? Nem a mim gosto de admitir isto. E tu és o meu filho, devia poder proteger-te.

Noutro dia disseste-me que tinhas medo de enlouquecer, foi no meio de uma discussão, eu estava a dizer-te que nunca ajudavas em casa, que nunca cumprias as tarefas, e tu insistias que não que durante um tempo tinhas cumprido. Sabes, tu é que estavas certo. Eu menti. Menti porque tinha vergonha de não ser capaz de criar regras e mantê-las, achava que isso me fazia uma péssima mãe. Não era a tua desorganização, era a minha. Tenho tanta pena de não ter ouvido melhor o que estavas a dizer. Tu choraste e eu não soube o que fazer. Tinha-me convencido que tinha que ser firme, mas isso era só uma opção desesperada por não saber como te ajudar. Estavas a escorregar-me pelos dedos. 

E depois houve aquele dia  horrível em que senti que podias escolher esconder-te na erva e no alcool, e outros que tais, para atenuar a tua dor e pensei no que isso podia fazer-te a ti, à família e a mim. Conheço bem o que esse caminho faz às pessoas. E eu não tinha a certeza de ter uma alternativa para te oferecer.

Durante a vida tive tantas vezes que me defender das pessoas que mais amava, ter tido que fazer isso contigo era mais do que eu podia tolerar. Por isso um dia, no espaço entre a porta do teu quarto e a do meu, eu que já não falo com Deus à tantos anos pedi-lhe: "O meu filho não! Passei por isso com o meu pai, com os meus parceiros mais amados, com amigos, mas com o meu filho é demais, não me podes pedir isso."
´
Decidi a tua morte naquele momento? Era a única alternativa? Eu não sei o que fiz. Só sei que  não queria ver-te passar por aquilo que vi outros passar. Iria até ao fim do mundo para te ajudar, mas será que me permitirias? Será que não me odiarias por sequer tentar?

Depois percebi que já eras quase um homem, tinhas 18 anos, os teus anos de formação tinham passado, o que eu tinha para te ensinar, para te passar, já estava. Que agora era contigo, que tinha que acreditar que te tinha dado o suficiente, que as ferramentas que te tinha dado iam chegar. Não chegaram Tomé. Porque não morreste de um acidente qualquer, nem de uma doença ou de algo em que não tivesses influência. Morreste em consequência de actos teus, que te colocaram em risco. E eu sei que esses actos estavam ligados à tua necessidade de lidar com a ansiedade e a angûstia em relação ao futuro. 

Tu querias tanto que eu e a avó nos déssemos bem... mas eu não consegui fazer isso por ti. Tu querias tanto que eu e o teu pai nos déssemos bem, e isso também tantas vezes não consegui. Tu que muito pequenino te agarravas à barriga de cada vez que ouvias gritar com alguém e dizias: "Mãe, pára, pára, eu não aguento, dói-me muito a barriga." Tu que em crescido me dizias: "Mãe, tu sabes como eu me sinto quando vocês discutem?". Tu que eras tão ligado a mim e eu a ti que um dia me confessaste que custava passar um dia inteiro na escola sem mim, a mim também me custava deixar-te lá. Tu precisavas tanto de uma delicadeza e um respeito que o sistema não tinha para te dar.

Eu queria tanto ter sido capaz de te salvar. Custa tanto Tomé aceitar que não fui capaz. Nem importa tanto se a culpa foi minha ou não, importa que não consegui salvar-te. Tentei com tanta força segurar-te mas caíste na mesma.

Eu pedi ajuda querido, pedi a muitas pessoas, a mais próximas e mais distantes, mas as respostas não diferiam muito: "não exageres é a adolescência." ou "mas vocês dão-se tão bem, vocês resolver isso, vais ver" como se o sofrimento na adolescência não contasse. Como se a adolescência fosse uma doença com sintomas inevitáveis em que temos que nos manter distantes para não a apanharmos. Como se uma pessoa sozinha pudesse criar um adolescente, uma criança, um bebé, um outro ser. Apetece-me gritar que não pode, não pode, não deve, é injusto, é uma estupidez. Tenho falado com outras mães Tomé, que também estão com medo, como eu estava, e também a elas ninguém as ouve. Ou agora ouço eu, mas não tenho soluções. É tão dificil.

Não é só por sermos uma só, é também porque a maioria de nós tem medo de homens. A grande maioria das mães tem medo de homens, teve experiências de violência com homens na sua vida, com pais, parceiros, desconhecidos na rua. E além disso herdou outro tanto da linha de  mulheres da sua família. Uma em cada seis mulheres, e por isso uma em cada seis mães passou por uma experiência de abuso ainda na infância. Na grande maioria por parte de homens. "Filha, tem cuidado como os homens." Então quando estamos numa relação com um homem, muitas de nós não se sentem seguras. Quão mais fácil é amar o filho do que o parceiro? Quão dificil é não o amar demais quando não se tem parceiro? Não se apoiar demais nele, não o tomar como o melhor amigo, justamente como eu fiz contigo. Parece tão  lindo, mas não é. Porque esse filho começa a sentir-se responsável pela mãe, como tu. E um dia quando esse filho se torna um homem,  um dia essa mãe olha para ele com medo, como eu. E esse filho que ama tanto essa mãe, fica com medo de ser quem ela vê quando tem medo, embora não seja. Mas como é que ele pode saber? Como é que tu podias saber? Como é que eu podia explicar-te se estava tão ocupada a esconder. Lamento tanto meu filho. Nem há palavras para descrever o quanto, ter tido medo de ti, e assim ter-te ensinado a ter medo de ti próprio. Não eras tu que eu via. Não eras tu.

Um dia chegaste a casa bebido, vieste-me dar um beijo e cheiravas a vinho. Tenho tanto nojo de homens a cheirar a vinho. Nesse dia saltou-me aquele olhar de nojo e tu viste. Tu viste e disseste-me depois: "Sabes o mal que me fez aquele olhar de nojo com que olhaste para mim?" Sei sim filho. Só que eu não estava a olhar para ti, estava a olhar para mim, para outros homens que chegaram a casa a cheirar a vinho, começando pelo meu pai, o nojo era deles, não era de ti. Mas como podias tu saber se eu estava tão ocupada a esconder? Tu não podias saber que eu aprendi a ter nojo de homens com o meu pai.  Como tu já sabias: é tão fácil fazer coisas más... mesmo os pais. E eu não soube como proteger-te disso. Querido, querido Tomé, não eras tu.

Sabes, eu tinha tantas ferramentas, Tomé, eu sou terapeuta, conheço as causas e efeitos dos traumas, mas não podia ser terapeuta de mim própria nem de ti. Eu só podia ser eu, a pessoa que carrega os traumas e só podia ser a tua mãe. Uma mãe que carrega tanto trauma. Ainda estamos tão longe Tomé, de estas coisas serem vistas e reconhecidas e de a ajuda chegar a tempo. Os sinais eram tantos e ninguém viu. 

Não foi só connosco Tomé, cada vez mais vejo que há tanta gente a passar por isto. Tantas famílias a equilibrar-se no arame e todos lhe dizem: "vocês conseguem." quando é óbvio que não. Está tudo a mudar. Aprendi tanto depois de tu morreres, tanto que acho que se fosse hoje talvez conseguisse ajudar-te. O que dois anos podem fazer... só que para ti e para mim, para nós como família já vem tarde. Ao menos acredito tanto que não vai ser em vão, que vou ter a força suficiente para me fazer ouvir. Que o que te aconteceu pode ser evitado com outras pessoas, outras famílias. Que se tu voltares um dia, encontres um mundo onde já possas ser feliz como adulto, de preferência algures perto de mim outra vez.

E nisso que penso quando escrevo, quando quero levar o Co.mover.se às escolas, por os pais e professores a falar e a ouvir os outros como tu. Lembras-te que tinhamos  planeado isso? Que tu compreendias tão bem a necessidade mas tinhas medo que não funcionasse? Que as pessoas não aderissem. Aqui vou eu descobrir Tomé. Com medos, mas ainda assim. Tanto amor que tenho por ti, não posso enfiá-lo numa caixa, tenho que o transformar em alguma coisa de bom. 

Estou tão aliviada por escrever isto, estava cravado como um espinho na minha alma. Espero que possa começar a curar agora que foi dito.

Comentários

Mensagens populares